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Eu, Dinossauro

Atualizado em 07/04/2006 - 00h00

Nunca iluminei um longa com HMI, nunca usei “dollie”, nem subi numa grua Phanter; nunca operei uma Panavision, nem usei claquete eletrônica. Mas aprendi na prática, com professores, profissionais de mercado, que não temiam concorrência.
Zé Medeiros (o poeta da luz), com quem fiz quatro assistências de câmera, depois de fotografar o meu primeiro longa (Marcelo Zona Sul), me ensinou a usar a luz; econômica, eficiente e criativa, imprimindo no filme de pouca sensibilidade a iluminação que o diretor imaginava.
Mario Carneiro me fez descobrir a beleza do preto e branco que ele usou magnificamente em “O Padre e a Moça”
Tony Rabatoni me deslumbrou iluminando com arcos, grandes planos noturnos nas dunas e praias de Cabo Frio em “Os Cafajestes”.
O Dib Lutfi, além de fazer mágica com a câmera na mão, ensinou a todos nós como iluminar o interior de uma casa tirando algumas telhas e deixando passar a luz do sol através de um plástico translúcido ou usando como rebatedor um grande lençol branco que maquinistas e eletricistas seguravam do lado de fora.
Como não aprender a lição de humildade do nosso querido e primitivo Zezé? Jose da Silva conseguia iluminar com o que tinha, e o que tinha quase sempre era muito pouco. Usava sua experiência de ex-eletricista para fazer foto-flood virar refletor. Ele simplesmente domava a luz.
E quem não ouviu falar que Afonso Viana dizia para seus assistentes de câmera, quando lhe perguntavam qual era o diafragma: abre tudo e reza. Mas na verdade ele estava usando pouca luz, trabalhando no limite da baixa sensibilidade do filme, rodando 1:1 e, mesmo assim, sua fotografia era impecável.
O saudoso Antonio Gonçalves, com quem fiz várias parcerias de 2ª unidade, conhecia como poucos o segredo de posicionar, no interior, velhos quinhentinhos “cremer” para, aos poucos, ir cortando, trabalhando cada um deles para conseguir efeitos inacreditáveis de luz e sombras.
Na prática aprendi com a sabedoria de eletricistas e maquinistas. Como esquecer os ensinamentos de mestres como Ulisses, Ademar, Eduardo português, Zé Dias, Sandoval, Alcino, Lidio, Vitor Rabelo, Waltinho, Zé Vieira e o velho e querido Russo, que junto com Gelson e Pedrinho foram os anjos-da-guarda dos meu primeiros longas.? E o Valdir, Paquetá, Moacir, Ramiro, Danilo, Nezinho e o sábio Joaquim? Eles me ensinaram a amar o meu trabalho.
Sem filmes sensíveis, sem HMI, sem gelatina Rosco, sem butterfly, sem chimera, sem kino-flo, sem colorímetro, sem filtros de correção, mas com muita paixão, fizemos, nas décadas de 70/80 mais de duas centenas de filmes.
Hoje é reconhecida por todos a excelente qualidade técnica de nossos filmes atuais, graças às novas tecnologias, aos equipamentos de luz, de maquinária, excelentes câmeras e, principalmente, aos grandes Diretores de Fotografia e técnicos brasileiros que fazem parte de uma equipe. A eles eu presto a minha jurássica e sincera homenagem desejando a todos que continuem o bom trabalho sem perder a paixão.

Edison Batista é Diretor de Fotografia. Começou em cinema no 1o Festival JB Mesbla em 1965.
Em 1981, já profissional, fundou a ATEC - Associação dos Técnicos de Cinema, hoje o nosso STIC.
Fotografou dezenas de curtas, filmes publicitários e 32 longas, entre os quais:
“Marcelo Zona Sul”, “Andre a Cara e a Coragem”, ambos de Xavier de Oliveira, “Amante Muito Louca”, de Denoi de Oliveira, “ Orum Morum”, de Olá Balogum, na Nigéria e “Amor e Traição”, de Pedro Camargo.

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